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[EcoDebate] “Uma vida dedicada à conservação do meio ambiente”. Esta frase é bastante comum em obituários de pessoas que defenderam o meio ambiente, assim como de pesquisadores que trabalharam com biologia da conservação, ramo da ciência voltada para a conservação da biodiversidade que conta com contribuições da zoologia, botânica, ecologia, biologia molecular, patologia e outras áreas.

Quando se diz “uma vida dedicada”, geralmente está-se referindo aos anos de atuação em atividades de pesquisa e ambientalistas, mas será que uma vida inclui finais de semana e atividades além das 8 horas de trabalho diárias? Foi este questionamento que motivou o desenvolvimento do trabalho publicado no jornal Biological Conservation, intitulado “Are conservation biologists working too hard?”(em tradução livre, “Biólogos da conservação estão trabalhando muito duro?”).

O artigo analisa material recebido pela própria Biological Conservation entre os anos de 2004 e 2012. Os autores analisaram o dia da semana e o horário dos envios de novos artigos e pareceres de pesquisadores – peer review, em inglês – sobre um trabalho alheio. Ao todo foram analisadas 10 mil submissões de artigos e 15 mil envios de pareceres.

Os resultados mostraram que 11% dos artigos e 12% das revisões foram enviadas nos finais de semana e 16% dos novos artigos foram submetidos durante a semana, mas após o horário normal de expediente, entre as 19h e 7h do dia seguinte, o que sugere que os pesquisadores estavam trabalhando além do esperado. No grupo do horário estendido, há um destaque para o Brasil, com o terceiro maior porcentual de submissões (22%). Entre 2004 e 2012, a porcentagem de submissão de artigos e de revisões aumentou em 5% e 6%, respectivamente. Em alguns países, como República Tcheca, Polônia, Singapura e China, os revisores trabalharam todos os dias da semana igualmente (sem descanso semanal).

No artigo, há um destaque para o volume de trabalho enviado fora do horário regular, provenientes de China e Índia. Além disto, na China e no Brasil, apesar de bons níveis de produção, os pesquisadores têm que dedicar muito tempo para atividades não relacionadas à pesquisa, incluindo atividades administrativas.

Os autores destacam que o desequilíbrio entre horas de descanso e atividades profissionais acarreta um impacto negativo na sua produção e um comprometimento das horas de lazer, por exemplo, reduzindo atividades físicas, encontros familiares e com amigos e hobbies. Além disto, eles sugerem que as universidades e instituições de pesquisa reorganizem-se, de forma a disponibilizar mais tempo durante o horário regular de trabalho, para que os biólogos da conservação completem as suas pesquisas, inclusive submissão e revisão de artigos.

O artigo apresenta uma análise do comportamento destes cientistas usando os dados de submissões e revisões, situação comum em várias outras áreas científicas. No entanto, é importante destacar que, em muitos finais de semanas, os biólogos da conservação fazem as suas atividades em campo, ou seja, realizam expedições em suas áreas de estudo, que podem ser um parque ecológico ou uma propriedade particular. Dadas as dimensões geográficas brasileiras e as condições de infraestrutura (estradas e aeroportos, por exemplo), estas viagens não são tão simples como em outros países. Por aqui, um trajeto pode levar de várias horas a dias que, acrescidos ao trabalho pesado e condições climáticas como chuva ou calor, demandam sobremaneira do pesquisador.

Acontecimentos recentes destacam que a atuação dos biólogos da conservação vai além da pesquisa e comunicação científicas. Devido ao envolvimento com a conservação da biodiversidade e o impacto da degradação ambiental sobre as espécies, estes cientistas quase sempre são ambientalistas, estando sujeitos aos riscos decorrentes da sua atuação política ou mobilização. A morte do ambientalista Gonzalo Alonso Hernandez no interior fluminense e a ameaça com arma de fogo a dois ambientalistas em Santa Catarina são acontecimentos recentes que demonstram tais riscos, assim como a morte de ícones como a Irmã Dorothy Stang e Chico Mendes.

Mesmo sob a pressão de uma carga horária que ignora fins de semana, um sistema acadêmico burocrático e pouco eficiente, a falta de recursos, o dispêndio de tempo e desgaste físico nas pesquisas em campo, além de todos os riscos decorrentes da defesa do meio ambiente, ou mesmo por causa de todo o quadro, é possível perceber que os biólogos da conservação são apaixonados e acreditam verdadeiramente no que fazem.

O artigo foi escrito por Ahimsa Campos-Arceiz, da School of Geography, da University of Nottingham (Malásia), Lian Pin Koh, do Department of Environmental Systems Science, da Universitatstrasse, de Zurich (Suíça) e Richard B. Primack, Biology Department, Boston University (EUA), e está disponível no site da Biological Conservation,quepode ser acessado gratuitamente.

Valdir Lamim-Guedes é Biólogo e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Aluno do Programa de mestrado lato sensu em Jornalismo Científico da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Blog Na Raiz: https://naraiz.wordpress.com/

E-mail: dirguedes@yahoo.com.br

EcoDebate, 04/10/2013