JC e-mail 4767, de 12 de Julho de 2013.

Dados foram apresentados por pesquisador da Malásia na abertura da primeira Reunião Regional da América Latina e Caribe da IPBES

Cerca de 75% da diversidade genética de culturas agrícolas foi perdida no último século e 22% das raças bovinas no mundo estão em risco de extinção. Os dados foram apresentados ontem, pelo pesquisador da Malásia, Zakri Abdul Hamid, presidente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES, na sigla em inglês), na abertura da primeira Reunião Regional da América Latina e Caribe desse organismo, realizada na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Ele alertou ainda que a perda de biodiversidade é um dos problemas mais graves enfrentados atualmente pela humanidade e vem ocorrendo de forma rápido e em todas as regiões do planeta.

Criado em abril de 2012, depois de oito anos de negociações internacionais, o IPBES tem o objetivo de organizar e sistematizar o conhecimento científico acumulado sobre biodiversidade, para dar subsídios a decisões políticas em âmbito internacional sobre o assunto. É um trabalho semelhante ao que tem sido feito nos últimos 20 anos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). O IPBES está organizado em três estruturas fixas: secretariado, diretoria e o Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP, na sigla em inglês).

O primeiro é gerenciado por quatro programas da Organização das Nações Unidas (ONU): Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). O MEP, por sua vez, é composto por 25 membros, com mandato de dois anos, escolhidos durante a primeira reunião plenária do secretariado, realizada entre 21 e 26 de janeiro na cidade de Bonn, na Alemanha. Entre eles, está o brasileiro Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do programa Biota-Fapesp. Em junho, ele também foi eleito um diretores do MEP.

De acordo com Joly, o MEP é fundamental no IPBES, pois é o responsável por definir o programa de trabalho da plataforma. Além disso, tem a complexa tarefa de integrar o conhecimento científico com outros saberes, como, por exemplo, os de comunidades indígenas e locais. Também é função do MEP solucionar o desafio de estabelecer as metodologias que serão utilizadas nos diagnósticos, para possibilitar que avaliações sub-regionais possam ser transformadas em regionais, que por sua vez serão integradas em um diagnóstico global de biodiversidade.

Joly disse que sua eleição para o MEP e para sua diretoria é resultado da inserção do programa Biota-Fapesp no debate internacional sobre biodiversidade. “A escolha de meu nome pelo MEP indica que também na área de transformação do conhecimento em políticas de conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade, o Biota conquistou seu espaço no cenário internacional”, disse.

Segundo Joly, apesar das semelhanças entre o trabalho do IPBES e do IPCC há diferenças. “Além da função de fazer o diagnóstico, o IPBES tem um diferencial muito grande em relação ao IPCC pelo fato de se preocupar com a questão da capacitação profssional”, explicou. “Isso vai desde a geração da informação sobre a biodiversidade até a interface entre o cientista, o público e o tomador de decisão. Precisamos treinar e capacitar pessoas e instituições para desempenharem esse papel e identificar as lacunas de conhecimento que temos e de que forma podemos equacionar esse problema. Nós podemos identificar que nos faltam conhecimento sobre biodiversidade oceânica, de maneira geral. Como isso pode ser equacionado? Que medidas precisam ser tomadas e qual a importância disso quando se pensa em modelos climáticos?”

Na reunião de ontem, Hamid, por sua vez, alertou que a perda de biodiversidade global tem o agravante de ocorrer em um momento de grandes mudanças climáticas globais e da necessidade de aumentar drasticamente a produção de alimentos, para atender o crescimento da população mundial. Sobre a crescente perda da diversidade genética de culturas agrícolas, o presidente do IPBES disse que isso está ocorrendo por causa do cultivo, por agricultores de todo o mundo, de variedades geneticamente uniformes e de alto rendimento e o abandono de muitas variedades locais. “Existem 30 mil espécies de plantas, mas apenas 30 culturas são responsáveis por fornecer 95% da energia dos alimentos consumidos pelos seres humanos”, explicou. “E a maior parte delas, cerca de 60%, se resume a arroz, trigo, milho, milheto e sorgo.”

No caso, das perdas de diversidade genética de animais domésticos, segundo Hamid, ela é resultado da falta de visão geral do valor de raças nativas e de sua importância na adaptação às mudanças climáticas globais. “Isso é consequência de incentivos à promoção de raças mais uniformes e da seleção focada de produtos agropecuários”, disse. De acordo com ele, a solução para tentar minimizar o risco de desaparecimento tanto dessas espécies de animais como de plantas é criar, cada vez mais, bancos de germoplasma (unidades de conservação de material genético de uso imediato ou com potencial uso futuro). Além disso, na esfera política, é preciso capacitar os tomadores de decisão para que atuem no sentido de reverter o problema da perda de biodiversidade existente no mundo hoje.

(Evanildo da Silveira para o Jornal da Ciência)

http://www.jornaldaciencia.org.br/impresso/JC740.pdf