Como desenvolver a economia rural sem desmatar a Amazônia?Barreto, P., & Silva, D. 2013. Como desenvolver a economia rural sem desmatar a Amazônia? Belém: Imazon.

É possível combater o desmatamento da Amazônia e promover o crescimento da economia rural da região. Essa tendência já vem ocorrendo desde 2007 e pode ser consolidada nos próximos anos. O fator crítico para aumentar a produção sem desmatar é aumentar a produtividade, especialmente da pecuária, que é o principal uso das áreas desmatadas. Estimamos que seria possível suprir o aumento da demanda de carne projetada até 2022 aumentando-se a produtividade em torno de apenas 24% do pasto com potencial agronômico para a intensificação existente em 2007. Assim, sem desmatar, até 2022 seria possível aumentar o valor da produção agropecuária em cerca de R$ 4 bilhões – um aumento de 16% do valor da produção agropecuária em 2010. Para que a produção agropecuária cresça apenas nas áreas já desmatadas o poder público deverá corrigir falhas de políticas que desencorajam o investimento nessas áreas e outras que estimulam o desmatamento.

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Com carne e com floresta…

Um dos pilares da argumentação contra a conservação da natureza no Brasil é que precisamos de mais área para nossa produção agropecuária. Ou seja, a ideia é que temos necessidade de produzir mais alimentos tanto para nossa população quanto para a exportação. Parte disso é verdade, mas o cerne do argumento – a necessidade de mais áreas – é falso.

Há muitas coisas que se deve levar em conta quando o assunto é a produção agropecuária, desde a questão da concentração de terras até a tecnologia utilizada. Aqui, porém, o tema vai ser a produtividade brasileira. Há dados que mostram que ela poderia ser muito melhorada. Nossa produtividade média de arroz, milho e feijão é bastante baixa quando comparada com países como a Austrália, os Estados Unidos, a Itália, a Holanda, a França, o Uruguai e o Chile. Mesmo a mandioca, nativa daqui, apresenta uma produtividade apenas razoável. Só a cana-de-açucar e a soja possuem produtividade comparável àquela apresentada por países de produtividade alta.

O mesmo acontece com nossa pecuária: baixa produtividade e a persistência do argumento sobre a necessidade de abertura de novas áreas. Agora um estudo, lançado pelo Imazon (Instituto do Homem e  Meio Ambiente da Amazônia), mostra que é possível mudar essa situação e dá a receita de como aumentar a produtividade da pecuária e reduzir o desmatamento concomitantemente. Enfatizando que o fator crítico para aumentar a produção sem desmatar é aumentar a produtividade, o Imazon estimou que seria possível suprir o aumento da demanda de carne projetada até 2022 aumentando a produtividade em cerca de 24% do pasto com potencial agronômico. Assim, sem desmatar nada, seria possível aumentar o valor da produção pecuária em aproximadamente R$ 4 bilhões. Mas, para que isso aconteça, segundo o Instituto, o governo precisa corrigir as falhas nas políticas que desencorajam o investimento nessas áreas e nas que estimulam o desmatamento.

Vale a pena ler o estudo – ou pelo menos dar uma olhada – pois ele nos remete à repetição de uma história já conhecida por nós: o fim de uma floresta por causa, majoritariamente, da forma de uso que a agricultura faz de suas terras. Assim foi com a Mata Atlântica, uma floresta que parecia sem fim – onde as terras eram sucessivamente desmatadas, usadas por pouco tempo para o cultivo e abandonadas – mas que virtualmente acabou. Não dá para fechar os olhos e o estudo do Imazon nos ajuda a mantê-los bem abertos, até mesmo de espanto!

O mapa deve ser examinado ao som de um réquiem ou da música fúnebre de sua preferência. E o mais incrível é que ainda há desmatamento na Mata Atlântica…