Por um Brasil ecológico, livre de transgênicos & agrotóxicos

Número 602 – 28 de setembro de 2012

Car@os Amig@s,

Como se poderia prever, o estudo científico conduzido pela equipe do Prof. Gilles-Eric Seralini, publicado na última semana, sobre os efeitos de longo prazo do milho transgênico tolerante à aplicação do agrotóxico Roundup, bem como dos efeitos de longo prazo do próprio Roundup, começou a sofrer ataques não só da empresa Monsanto, produtora do milho transgênico e do Roundup, mas também de cientistas defensores da transgenia.

Mais do que entrar nos detalhes de réplicas e tréplicas, vale um comentário de fundo sobre o tipo de reação que provocaram todos os estudos já realizados que apontaram evidências de efeitos negativos dos transgênicos para a saúde ou o meio ambiente: as críticas, que começam imediatamente a correr mundo, buscam desqualificar a pesquisa por completo, com alegações do tipo “o estudo carece de qualquer base científica”, “o estudo não atende as normas mínimas aceitáveis para esse tipo de pesquisa científica”, ou ainda “os dados apresentados não suportam as interpretações do autor”.

É preciso dizer que a pesquisa em questão foi peer reviewed, ou seja, revisada por pares – outros cientistas que compõem o comitê editorial das revistas científicas para avaliar a qualidade dos dados e das análises. Mais que isso, dada a importância que tem para os pesquisadores (acadêmicos em geral) a publicação em revistas bem conceituadas em suas áreas de estudo, existe atualmente uma enorme competição por publicações e só chegam a ser publicados os estudos que atendem, rigorosamente, a todos os padrões de qualidade exigidos. A pesquisa sobre os efeitos de longo prazo do milho transgênico NK603 e do Roundup, herbicida a base de glifosato fabricado pela Monsanto, foi publicada na revista Food and Chemical Toxicology, uma das revistas científicas mais conceituadas da área.

É fundamental também dizer que, ao contrário da pesquisa ora em evidência, os estudos que embasaram as liberações comerciais de transgênicos pelo mundo a fora NÃO foram publicados em revistas científicas. Esses estudos, em sua maioria esmagadora conduzidos ao longo de no máximo 3 meses, são realizados pelas próprias empresas que desenvolveram os produtos, não são “revisados por pares” e, mais ainda, comumente não têm seus dados tornados públicos, contendo partes importantes declaradas como sigilosas!

Ou seja, os cientistas que dizem duvidar da qualidade da ciência que aponta problemas no milho transgênico e no agrotóxico usam sua autoridade científica para tentar desmerecer o mecanismo de validação que é aceito no meio científico – a publicação – e conferir legitimidade a resultados de pesquisas cujo rigor não é avaliado por comitês independentes.

Com efeito, à luz dos dados publicados, questionamentos verdadeiramente científicos deveriam, no mínimo, sugerir a repetição dos experimentos de modo a confirmar ou não as novas descobertas. Mais ainda, deveriam sugerir a realização de estudos ainda mais abrangentes, de preferência incluindo todos os transgênicos já liberados no mercado e presentes nos nossos pratos de comida.

Um exemplo para ilustrar a qualidade dos estudos que embasam a liberação comercial de organismos geneticamente modificados no Brasil, em comparação ao estudo recém-publicado pela equipe francesa e criticado pelos cientistas defensores da transgenia, é o caso do feijão transgênico desenvolvido pela Embrapa para resistir ao vírus do mosaico dourado.

Segundo a documentação apresentada à CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), o feijão foi testado em 3 ratos (!), ao contrário da pesquisa francesa, que analisou 10 grupos de ratos, cada um contendo 10 fêmeas e 10 machos (200 animais no total).

Nos três roedores que se alimentaram do feijão transgênico, todos machos, identificou-se tendência de diminuição do tamanho dos rins e de aumento do peso do fígado. Isso mesmo tendo-se abatido os ratinhos antes da idade adulta – ao contrário da pesquisa francesa, que observou as cobaias durante 24 meses (todo o período de vida dos animais).

Essa pesquisa sobre os efeitos do feijão transgênico sobre a saúde não está publicada em revista científica alguma. Apesar disso, o pesquisador responsável pelo desenvolvimento do feijão transgênico, também integrante da CTNBio, afirmou que “foram realizados testes além do necessário”. Os doutores da CTNBio também consideraram esses resultados suficientes para “comprovar” a segurança do feijão para o consumo humano e autorizar o plantio comercial.

Exemplos como esse deixam claro que tipo de ciência cada grupo de cientistas defende.

Quanto ao detalhamento e discussão das críticas difundidas contra o estudo publicado na Food and Chemical Toxicology, sugerimos a leitura das respostas publicadas pela equipe que desenvolveu o estudo – a tradução está disponível em nosso blog.

Para mais informações sobre o estudo do Prof. Seralini leia, em inglês: First Peer Reviewed Lifetime Feeding Trial Finds “Safe” Levels Of GM Maize And Roundup Can Cause Tumors And Multiple Organ Damage – heraldonline.com, 19/09/2012.

Leia também a íntegra do estudo “Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize”, publicado na revista Food and Chemical Toxicology.