[JC e-mail]  Por Valdir Lamim-Guedes e Carlos Junior Gontijo Rosa*

“Díli cheira a queimado, morte e destruição. A visão é alucinante. Quarteirões inteiros de casas brancas incendiadas, devoradas por enormes labaredas negras, saqueadas, destruídas”. É assim que a jornalista brasileira Rosely Forganes descreve a capital de Timor-Leste em seu livro “Queimado queimado, mas agora nosso! Timor: das cinzas à liberdade” (Labortexto editorial, 2002), durante a onda de violência que se seguiu ao referendo popular organizado pela ONU em 30 de agosto de 1999. Este referendo, com mais de 97% de participação popular e 78,5% de votos pela independência, foi o ponto final à dominação indonésia sobre esta ex-colônia portuguesa.

 O Timor-Leste, após quase cinco séculos de dominação portuguesa, em 1975, teve declarada, unilateralmente, a sua independência. No entanto, apenas alguns dias depois, o país foi invadido pela Indonésia. Como resultado do referendo houve o reconhecimento do direito do povo timorense à autodeterminação e à independência. De 1999 a 2002, o país foi administrado pela ONU. No dia 20 de maio de 2002, subiu ao poder um governo democraticamente eleito, sendo este momento considerado a restauração de independência.

 Desde 1999, o país tem convivido com a presença da ONU e a cooperação de diversos países, como Portugal, Austrália, Cuba, Japão e Brasil em diversas áreas, como infraestrutura, saúde, desenvolvimento agrário e educação. A cooperação internacional tem sido essencial em Timor-Leste, por falta de recursos, tanto financeiros, como humanos, para exercer muitas funções, desde administrativas do Governo, até de formação e implementação de formas de subsistência do país.

 Em 10 anos de autogestão, com participação e apoio da ONU e cooperações de vários países, os relatórios sobre Desenvolvimento Humano publicados pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) indicam que o IDH (índice de Desenvolvimento Humano) do país saiu de 0,404 em 2000, para 0,495 em 2011, que significa uma melhora. Em 2011, o país ocupou a 147ª posição no ranking do IDH, em um total de 188 países, sendo considerado, apesar da melhora, um país com baixo desenvolvimento humano. Ainda segundo o PNUD, 37,4% da população vive abaixo da linha internacional de pobreza, de USD 1,25 por dia.

 No Censo de 2010, foram registrados 1.066.409 habitantes, sendo a densidade populacional de 71 habitantes/km². Destes, 70,4% vive na zona rural. Quanto a idade, 44,4%, tem entre 0 e 14 anos, enquanto 53,9% tem entre 15 e 64 anos e apenas 4,7% com mais de 65 anos. A taxa de crescimento anual é de 2,4%; 0,8% menor do que em 2004 (3,2%).

 Nestes 10 anos, o país passou por momentos de grande tensão, como as divergências de pensamento com a Igreja Católica em 2005, por causa do ensino religioso nas escolas, a grave crise política e militar de 2006 e o atentado contra o presidente José Ramos-Horta, em 2008. O petróleo gera grandes divisas para o país, o que tem financiado os programas governamentais de infraestrutura, saúde e educação.

 A autodeterminação do povo timorense tem-se configurado com a proteção e estímulo à cultura tradicional, inclusive com o incentivo ao uso da língua portuguesa, que não é apenas a língua da metrópole colonizadora, mas também da resistência. Resistência esta que lutou para mostrar ao mundo que, apesar das semelhanças com a Indonésia e o vínculo com Portugal, este é um país com história, cultura e línguas próprias e, por direito, poderia se tornar uma nação.

 Neste 20 de maio de 2012, o presidente Ramos-Horta passou o controle do país ao general Taur Matan Ruak, ex-chefe das Forças Armadas timorenses. Segundo Ramos-Horta, em entrevista à agência de notícias Lusa, apesar dos momentos de instabilidade que o país viveu nos primeiros anos da restauração da independência e das demais críticas e falhas, o balanço é “francamente positivo”.

 Em 2012, com eleições limpas, espaço para a oposição e clima de paz, acredita-se que a Missão Integrada das Nações Unidas para o Timor-Leste (UN Integrated Mission to Timor-Leste – UNMIT) poderá ter fim sem ameaças à estabilidade do país. Restam, agora, as eleições parlamentares, marcadas para 7 de julho de 2012, a fim de completar o processo de composição do novo governo, com a formação do Parlamento e escolha do novo Primeiro Ministro. Frente a este quadro bastante positivo, ao longo deste décimo ano de independência a Missão retira-se do país, deixando a administração completamente em mãos timorenses. E vida longa ao Timor independente!

 Valdir Lamim-Guedes e Carlos Junior Gontijo Rosa são professores convidados na Universidade Nacional de Timor-Leste. Artigo enviado ao JC Email pelos autores.

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