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Em 10 de dezembro de 1996 era entregue o Prêmio Nobel da Paz ao Bispo Carlos F. Ximenes Belo e a José Ramos-Horta (“for their work towards a just and peaceful solution to the conflict in East Timor”). Este acontecimento, junto com o massacre ocorrido no cemitério de Santa Cruz (12-nov-1991) e outros incidentes, culminaram no referendo popular pela independência ou integração à Indonésia, que dominava o Timor-Leste desde 1975.

J. Ramos-Horta parecia prever que períodos ainda mais sangrentos estavam por vir. Em seu discurso por ocasião da entrega do Prêmio Nobel, como profundo conhecedor da violência que o povo sofria a décadas, disse, no fim de sua fala:

Com esta observação termino, com esperança renovada de que, independentemente do grau de força bruta utilizada contra nós, os nossos sonhos nunca morrerão.

O resultado do referendo (78,5% pela independência) foi seguido por uma onda de violência (“setembro negro”), fechando 24 anos sangrentos de truculência e ditadura impostos pela Indonésia. Algumas regiões tiveram mais de 75% das casas destruídas em setembro de 1999 (figura abaixo. Fonte: Durand, 2010¹).

Mapa destruição pós 1999 (Fonte: Durand, 2010)

Esta frase faz parte do trecho final do discurso de Ramos-Horta. A seguir está a reprodução deste trecho:



Os profetas da desgraça2,3

O mundo mudou muito profundamente no decurso dos últimos anos e os teóricos da irreversibilidade e do statu quo foram desacreditados com o colapso da URSS.

Quem acharia possível que o grande povo armênio, perseguido durante centenas de anos, iria recuperar um país chamado Armênia?

O mundo inteiro conspirou contra o povo eritreu. Americanos, russos e cubanos foram coniventes contra aquela pequena nação.

Duas grandes nações, israelita e palestina, que juraram ódio eterno demonstraram coragem e sabedoria e iniciaram um doloroso processo de diálogo.

Na África do Sul, antigos inimigos tentam reconstruir a sua Pátria comum.

Por último, mas não menos importante, permitam-se, profetas da desgraça e aqueles que nos aconselham “realismo”, que lhes relembre uma notícia da fidedigna BBC, de há poucos anos atrás.

No início de 1991, dirigia-me da pequena vila suíça de Nyon para o Palácio das Nações, em Genebra, para mais uma reunião fútil num local onde diplomatas fingem estar demasiado ocupados para darem ouvidos aos problemas reais de povos reais.

A BBC relatava o episódio do cosmonauta soviético que havia partido para o espaço uns meses antes, numa daquelas missões tendentes a bater o recorde de permanência no espaço. Quando foi lançado, de algures na União Soviética para o espaço, era portador de um passaporte e de uma nacionalidade concedidos pelo império militar mais temido do mundo.

Depois de cumprido o dever, para orgulho da Pátria socialista, preparou a nave para a viagem de regresso à Terra. Mas já não tinha um país para onde voltar. O poderoso império deixara de existir. Foi obrigado a orbitar em torno da Terra durante mais alguns dias até que as pessoas de boa-vontade decidissem para que país deveria regressar.

Com esta observação termino, com esperança renovada de que, independentemente do grau de força bruta utilizada contra nós, os nossos sonhos nunca morrerão.

Deus vos abençoe. Muito obrigado.


Notas:

1 – DURAND, F. Timor-Leste: país no cruzamento da Ásia e do Pacífico. Um atlas histórico-geográfico. Lisboa: Lidel. 2010. 207p.

2 – SEJERSTED, F.; XIMENES-BELO, C. F.; RAMOS-HORTA, J. Timor-Leste Nobel da Paz: discursos proferidos na cerimônia de outorga do Prêmio Nobel da Paz 1996. Lisboa: edições Colibri. 1997. 160p.

3 – páginas 110-111.

Saiba mais (textos em inglês)

Declaração de outorga do Prêmio Nobel da Paz – 1996

Discurso completo do Presidente da Sociedade do Comitê Novel Norueguês, Francis Sejersted

Discurso completo de J. Ramos-Horta

Discurso Completo de C. F. Ximenes Belo

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