[JC Email] Artigo de Valdir Lamim-Guedes e Carlos Junior Gontijo Rosa, professores convidados na Universidade Nacional de Timor-Leste. Texto enviado ao JC Email pelos autores.

Timor-Leste é um país do sudeste asiático, localizado entre a Indonésia e a Austrália. Ex-colônia portuguesa, obteve a independência em 1975, mas logo depois foi invadido pela Indonésia, que instaurou uma violenta ditadura por 24 anos proibindo, entre outras coisas, o uso da língua portuguesa no país. Em 1999, após um referendo popular organizado pela ONU, os timorenses optaram pela independência e sofreram dias de massacre empreendido pelo exército e milícias indonésios. Desde então, o país tem convivido com a presença da ONU e a cooperação de diversos países como Portugal, Austrália, Cuba, Japão e Brasil.

O cenário criado pela colonização portuguesa, invasão indonésia, presença australiana e uma cultura riquíssima em termos linguísticos fez com que no Timor-Leste convivam muitas línguas: as oficiais português e tétum, além de mais 31 línguas nativas, inglês e indonésio. O português foi escolhido como língua oficial, junto ao tétum, por sua importância histórica e política – pelo período de colonização e pela resistência contra a ocupação indonésia -, além de favorecer a inserção do país no cenário internacional. Por estes motivos, tem sido estimulado em Timor-Leste a reintrodução da língua portuguesa.

Em fevereiro deste ano, chegamos em Timor-Leste com um grupo de 30 brasileiros e 4 portugueses, professores convidados na Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL), a única instituição pública dedicada ao ensino superior no país. Um dos principais objetivos é inserir o ensino em língua portuguesa nos primeiros anos dos cursos desta Universidade, além de melhorias no âmbito técnico e cientifico.

Antes de chegar em Timor-Leste, em leituras ou durante a capacitação que tivemos, fomos avisados sobre as dificuldades em exercer a docência no país. Entre as informações disponibilizadas, estavam as dificuldades de comunicação em português, embora os alunos já tivessem contato com a língua portuguesa durante todo o ensino primário e secundário.

Em algumas semanas, a realidade futura tornou-se presente e começamos a criar uma visão própria sobre a realidade com a qual nos deparamos.

Muitas verdades foram ditas, mas certos detalhes passaram despercebidos. Os alunos não são tão desenvoltos na língua quanto pensávamos. O português é visto como língua erudita, restrita ao espaço escolar acadêmico – ainda assim, com ressalvas -, e pouco voltada para a comunicação cotidiana, mesmo nos pátios da UNTL. Talvez o mais surpreendente, no entanto, é que os alunos sabem muito da gramática da língua portuguesa, mas não são capazes de interpretar satisfatoriamente o que estão lendo.

A posição adotada pelos professores timorenses em sala de aula também contribui pouco às mudanças do atual quadro educacional do país. Os professores são vistos como únicos detentores da informação e oferecem um pouco de seu tempo e conhecimento aos alunos, além disto, o conhecimento do docente é tido como absoluto, não sendo levada em conta a diversidade de opiniões sobre um mesmo assunto. Com isto, a aprendizagem dá-se basicamente pela memorização de informação, com menor destaque para o desenvolvimento de opinião crítica e de pensamento lógico e abstrato. Somado a isto, boa parte dos docentes utiliza a língua indonésia nas atividades acadêmicas.

O nosso grande desafio aqui, portanto, é fazer com que os alunos possam interpretar os textos que leem, independentemente da disciplina, além de analisar de forma livre e crítica a informação disponível.

Como chegamos a pouco tempo no país, ainda temos que superar a distância e o parco conhecimento da realidade local. Há ainda uma grande carência de material didático, especialmente livros, quer didáticos, técnicos ou paradidáticos. A maior parte do que existe está em língua indonésia e é, geralmente, pouco atualizado. Assim, preparar aulas e material didático que atenda às necessidades e ao domínio do idioma português pelos alunos, e que ainda seja coerente e coeso, constitui outro desafio a ser superado.

Outra questão encontrada é a própria comunicação com nossos colegas docentes, pois poucos professores universitários dominam o português. Contudo, uma situação positiva é que a maioria deles nos receberam bem e com a ideia de aproveitar a nossa contribuição.

Nestas primeiras semanas de docência no ensino superior em Timor-Leste, a conclusão que tiramos é que, independente da área do conhecimento, a melhor cooperação que talvez possamos exercer será contribuir para que os alunos possam ser senhores de seus destinos, que sejam críticos, até mesmo para decidirem se querem ou não estudar em português.

Referência:

 LAMIM-GUEDES, V., GONTIJO-ROSA, C. J. Desafios da docência no ensino superior por professores brasileiros em Timor-Leste. Jornal da Ciência, 2012. Disponível em: <http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81843&gt;.

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