O livro Descolonização de Timor: missão impossível? de Mário Lemos Pires, governador de Timor-leste nos meses antes da independência de Portugal e invasão pela Indonésia em 1975, em seu primeiro capítulo, traz um interessante comentário sobre o futuro do país e a participação de Portugal para a independência e desenvolvimento de Timor-Leste no pós 75:

(…) o povo timorense vai uma vez mais superar o mal que vem dos homens, com a ajuda dos portugueses, a quem a história obriga, a cultura impõe e o coração solicita, com as vicissitudes de sempre, a distância teimosamente a interpor-se deixando Timor longe, só e esquecido.

A seguir, parte do capítulo 1:

Cap 1: Timor antes de 25 de abril.

[pág. 19] Ao cair da tarde do dia 8 de dezembro de 1975, duas corvetas da Armada portuguesa deslocavam-se para leste, afastando-se das águas da ilha de Ataúro, passando ao largo de Díli e avistando a cidade envolta em grandes colunas de fumo. A bordo dos dois navios seguiam embarcados, cumprindo ordens de Lisboa, o delegado do Governo de Timor e um punhado de militares portugueses, últimos representantes da administração portuguesa no território, desde a véspera invadido pelas tropas do Governo indonésio.

Perto de cinco séculos tinham decorrido desde que os primeiros portugueses haviam alcançado tão longínquas paragens e, desde então, tinham convivido com as gentes daquele pequeno país que se perde na imensidade dos oceanos, um país todo verde cercado de azul[1]. Não terminaria aqui a história do povo timorense, uma história que também é portuguesa. A invasão de Timor pela indonésia, no dia 7 de dezembro de 1975, foi um virar de página da história de modo escusadamente violento, cruel e doloroso. A mais cruel e devastadora ofensiva que o povo timorense sofreu, ultrapassando de longe a ocupação japonesa e as campanhas de ocupação e conquista dos europeus.

Mas o povo timorense vai uma vez mais superar o mal que vem dos homens, com a ajuda dos portugueses, a quem a história obriga, a cultura impõe e o coração solicita, com as vicissitudes de sempre, a distância teimosamente a interpor-se deixando Timor longe, só e esquecido.

Referência: PIRES, M. L. Descolonização de Timor: missão impossível? 3º. Ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 1994. 461p.


[1]Timor, País de Sol e Volúpia – cadernos coloniais (Nº. 42), Paulo Braga, pág. 3.