Talvez a figura acima tenha sido um dos debates mais acirrados em 2011. E, lógico, usado para atacar o governo, como tudo acaba sendo usado quando se trata da grande mídia. Tal comportamento do chamado “PIG” (Partido da Imprensa Golpista) foi, escancaradamente, apresentado pelo ombudsman da Folha “O vazamento da crítica interna da ombudsman da Folha” sobre a posição do jornal em relação a cobertura do livro “A Privataria Tucana”.

De fato, o que envolveu este debate, além das criticas ao governo, com a utilização de frases fora de contexto, foi um caso de “Preconceito Linguístico”. Como muito bem apresentado no texto de Sírio Possenti, publicado no site da Revista Ciência Hoje: Preconceito Linguístico.

Alguns trechos do texto:

“Um dos debates mais quentes do ano foi sobre um livro didático acusado de ensinar regras de português erradas (na verdade, ninguém leu o livro; foram lidas algumas frases soltas de uma das páginas de um dos capítulos). A acusação mereceu diversas manifestações de especialistas, que tentaram mostrar que uma língua é um fenômeno mais complexo do que parece ser quando apresentada apenas em termos prescritivos.

(…)

Já que o preconceito consiste em considerar alguém ou algum grupo inferior ou incapaz (mulheres para os homens, negros ou indígenas para os brancos etc.), a analogia em relação à diversidade das línguas se aplica quase automaticamente: os diferentes são portadores de defeitos.

(…)

No fundo, o preconceito linguístico é um preconceito social. É uma discriminação sem fundamento que atinge falantes inferiorizados por alguma razão e por algum fato histórico. Nós o compreenderíamos melhor se nos déssemos conta de que ‘falar bem’ é uma regra da mesma natureza das regras de etiqueta, das regras de comportamento social. Os que dizemos que falam errado são apenas cidadãos que seguem outras regras e que não têm poder para ditar quais são as elegantes.

Isso não significa dizer que a norma culta não é relevante ou que não precisa ser ensinada. Significa apenas que as normas não cultas não são o que sempre se disse delas. E elas mereceriam não ser objeto de preconceito.

A leitura de um ou dois capítulos de qualquer manual de linguística poderia fazer com que todos se convencessem de que estivemos equivocados durante séculos em relação a conceitos como ‘falar errado’. Para combater esse preconceito, basta um pouco de informação.

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Este texto apresenta de forma clara que o preconceito linguístico é, essencialmente, um preconceito social. Lendo isto, lembrei de um colunista da revista Caros Amigos que escreve sobre o “Falar Brasileiro” (este é o nome da coluna, muito sugestivo!), no qual ele quase sempre aponta para este fato, de que o certo é o que é falado pela classe dominante, mesmo quando foge da norma-culta.

Fui procurar as minhas revistas Caros Amigos para ler algum texto deste autor, e lembra seu nome também. Ele se chama Marcos Bagno e é professor da UNB e mantém um site http://marcosbagno.com.br/site/.

No texto “Gramática ou linguística” ele explica que:

A gramática não é um conjunto de regras que definem o “falar bem” e o “escrever certo”. Esse conjunto forma o que se chama de norma-padrão. A norma-padrão é um produto sociocultural, resultado de conflitos de interesse, lutas de poder e hierarquizações políticas. No entanto, seu poder simbólico é tamanho que muita gente identifica essa norma com a própria língua: assim, “português” não é a língua falada por 250 milhões de pessoas mundo afora, mas simplesmente aquela pobre redução de todo esse universo linguístico a um código penal de “certos” e “errados”.

A gramática é o estudo do funcionamento da língua em todos os seus níveis: fonológico, morfossintático, semântico, pragmático, discursivo. Para o linguista, “nós falamos”, “nós falamo”, “nós falemo” e “nós falou” são formas perfeitamente explicáveis do ponto de vista científico e, por isso, nenhuma delas é mais bonita ou mais bem formada que as outras. Foi só por razões históricas, políticas e socioculturais (ou seja, que escapam do que é propriamente linguístico) que a forma “nós falamos” se fixou como a “certa”. Não por acaso, a forma mais conservadora, a menos usada pela maioria da população. Afinal, os nossos “certos” e “errados” vêm sempre de cima para baixo e não o contrário, como em sociedades de democracia mais antiga (…).

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Outro texto do Carlos Bagno é ótimo para demonstrar o que na verdade significa “falar errado”. Abaixo está um trecho do texto Por que há erros mais errados do que outros?:

Quando um “erro de português” já se instalou definitivamente na língua falada pelos cidadãos mais letrados, privilegiados, ele passa despercebido e já não provoca reações negativas – ainda que ele seja condenado pela gramática normativa, a mesma que, supostamente, deveria ser seguida pelas pessoas “cultas”. Por isso, há “erros” mais “errados” (ou mais “crassos”) do que outros – a escala de “crassidade” é inversamente proporcional à escala do prestígio social: quanto menos prestigiado é um indivíduo, quanto mais baixo ele estiver na pirâmide social, mais erros (e erros mais “crassos”) os membros das classes privilegiadas encontram na língua dele. Por outro lado, os falantes urbanos letrados detectam menos “erros crassos” na fala de pessoas de sua mesma origem social, notoriamente privilegiada – quando muito, são tidos como “lapsos”, “descuidos” ou “licenças poéticas”. Essa mesma condescendência, no entanto, jamais aparece para classificar a fala dos cidadãos das classes desfavorecidas: o mesmo fenômeno, agora, é tachado de “erro crasso” e ponto final. É como afirmava (dizem) Getúlio Vargas: “Para os amigos tudo, para os inimigos, a Lei”. Afinal, o que está sendo avaliado não é apenas a língua da pessoa, mas sim a própria pessoa, na sua integralidade física, individual e social. Por isso, não existe propriamente preconceito linguístico, o que existe é um forte, profundo e arraigado preconceito social contra as classes desfavorecidas. E a língua funciona aí exatamente como as redes eletrificadas, as câmeras e as guaritas blindadas usadas nos condomínios privados – separa, isola, vigia e protege.

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mais sobre este assunto:

Polêmica ou ignorância?

Texto de Carlos Bagno sobre a “discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa”.

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Recomento a leitura dos textos completos citados acima.

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