Detalhe de uma ilustração da Amazônia feita no século 19 pelo naturalista alemão Carl von Martius, que levou para a Europa diversos espécimes da flora brasileira.

Projeto vai trazer para o Brasil dados de plantas coletadas por naturalistas no país entre os séculos 18 e 20 e depositadas em instituições na Inglaterra e França. Os exemplares serão digitalizados e disponibilizados em um herbário virtual com outras espécies da flora brasileira.

[Ciência Hoje] Por: Gabriela Reznik

“Nada aqui lembra a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e pinheiros.” A frase dita pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) em uma de suas expedições ao Brasil, ao comparar as florestas nativas cariocas e mineiras com as da Europa, ilustra o encantamento dos europeus pela nossa flora. Diante de tamanha biodiversidade, muitos exemplares foram recolhidos para estudo.

Duzentos anos depois, o projeto Plantas do Brasil: Resgate Histórico e Herbário Virtual para o Conhecimento e Conservação da Flora Brasileira (Reflora) pretende digitalizar e trazer para o país as amostras e os dados coletados por Saint-Hilaire e outros tantos naturalistas que percorreram o Brasil durante os séculos 18, 19 e 20.

Andando quilômetros a pé, no lombo de burros ou em canoas, botânicos como Saint-Hilaire, o francês Auguste François Glaziou (1833-1906) e o alemão Carl von Martius (1794-1868) retornavam aos seus países de origem com extensos cadernos de campo e espécimes da flora brasileira, que eram doados ou vendidos a instituições europeias.

 “Os naturalistas desejavam fazer uma grande enciclopédia, um inventário da natureza como um todo”, diz uma das pesquisadoras envolvidas no projeto, a historiadora Lorelai Kury, da Casa de Oswaldo Cruz.

“Eles tinham conhecimentos não apenas botânicos, mas de zoologia, geologia e outras áreas, de modo que seus cadernos e relatos de viagem nos dão, além de uma descrição mais apurada da planta, uma referência do contexto e do local em que foi coletada.”

Duas das instituições que receberam plantas brasileiras, o Jardim Botânico de Kew, na Inglaterra, e o Museu de História Natural de Paris, na França, são o foco do Reflora. “Elas foram escolhidas por guardarem o maior acervo de amostras coletadas no Brasil nesse período”, conta a taxonomista Rafaela Campostrini Forzza, curadora do herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ).

“Mas outros locais também guardam importantes coleções, como os herbários de Bruxelas [Bélgica] e Munique [Alemanha], nos quais está depositada a coleta de von Martius, autor da Flora Brasiliensis”, complementa.

Grande herbário virtual

O projeto, que começou suas atividades há poucos meses, é ambicioso e conta com diversas frentes de pesquisa e atuação em 28 instituições de todo o país. Uma delas prevê a construção, em três anos, de um herbário virtual com cerca de um milhão de exemplares – metade deles oriunda das coleções de Kew e Paris e a outra metade do herbário do JBRJ.

A taxonomista ressalta que muitas das amostras guardadas em herbários europeus serviram de modelo para a descrição primária das espécies, o que reforça a importância de torná-las disponíveis para consulta.

A digitalização das amostras está sendo feita em um scanner especial, para preservar a integridade das plantas. “Já foram digitados dados de 400 mil exemplares do nosso herbário e escaneadas imagens de 25 mil amostras”, afirma Forzza.

Usando um ‘scanner’ especial que preserva a integridade das plantas, os pesquisadores do projeto Reflora já digitalizaram 25 mil amostras do herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. (foto: Gabriela Reznik)

A pesquisadora diz que a iniciativa será mais do que uma base de dados, pois os usuários poderão colaborar com informações mediante cadastro pessoal. Os especialistas poderão reidentificar as amostras e comparar os exemplares das três coleções ao mesmo tempo. “Isso irá facilitar muito a pesquisa e a identificação dos espécimes. Antigamente, tínhamos que viajar pelos herbários europeus contando apenas com a memória e anotações.”

Saint-Hilaire, coletor de cerca de 15 mil espécimes de plantas entre 1816 e 1822, tanto enalteceu as matas brasileiras que virou tema central de dois subprojetos do Reflora. Um deles contará com o trabalho de historiadores, como Lorelai Kury, que se debruçarão sobre cartas, documentos, livros e cadernos de campo para compreender as concepções botânicas do naturalista e compará-las às dos botânicos de hoje.

Seguir as pegadas do francês pelos caminhos da Estrada Real, localizada em Minas Gerais e percorrida quando ele era membro da comitiva da então arquiduquesa da Áustria Maria Leopoldina (1797-1826), é o objetivo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 “Pretendemos saber qual a situação das plantas hoje em dia”, diz a especialista em plantas medicinais Maria das Graças Lins Brandão, coordenadora do banco de dados de plantas úteis (Dataplamt) da UFMG.

O projeto Reflora traduz um esforço que virou prioridade para os botânicos: catalogar a biodiversidade brasileira. Hoje esse trabalho carece de suporte técnico e de mão-de-obra especializada e a quantidade de amostras que precisam de identificação é crescente.

Rafaela Forzza ressalta a importância de identificar e depositar amostras da flora brasileira em coleções, pois só assim existirá uma prova de sua existência. E enfatiza: “As coleções precisam ter maior visibilidade, porque, mais do que dados digitalizados, são a preservação da história da nossa ciência.”

Gabriela Reznik
Ciência Hoje On-line

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