Autor: Bernardo Esteves. Blog Questões de Ciência da Revista Piauí

O leitor talvez já tenha notado que parte considerável do noticiário sobre ciência relata resultados de estudos publicados num grupo muito seleto de periódicos científicos. Duas revistas em especial – a britânica Nature e a americana Science – respondem pela maioria das notícias.
Essa predominância se explica em parte pela qualidade desses periódicos. Eles estão entre os mais influentes do mundo, são extremamente seletivos e têm critérios muito rígidos para a aceitação de artigos. É normal que os estudos publicados ali chamem a atenção dos cientistas e da imprensa.

Mas outros fatores também contribuem para a superexposição dessas revistas, e o principal deles talvez seja o forte esquema de divulgação montado por elas. Jornalistas previamente cadastrados recebem o conteúdo desses periódicos com uma semana de antecedência, junto com comunicados de imprensa que ajudam a traduzir os artigos técnicos para leigos, imagens prontas para publicação, kits multimídia e informações de contato de especialistas. Em troca, os repórteres se comprometem a só divulgar o material na data estabelecida pela revista.

Esse sistema de embargo jornalístico é muito prático para os jornalistas, mas tende a favorecer uma cobertura de ciência acomodada e uniformizada. Não é incomum que as editorias de ciência de jornais de Nova York, Buenos Aires, Viena e Jacarta relatem um mesmo estudo no mesmo dia – notícias da Nature na quinta e da Science na sexta.

O sistema de embargos é alvo rotineiro de ressalvas e já motivou a criação de um blog crítico. A solução para fugir da uniformização imposta por ele talvez esteja numa maior valorização dos pequenos periódicos, como sugeriu o jornalista de ciência americano Dave Mosher em seu blog no início do ano. O repórter enxerga “um poço fértil de boas pautas em uma montanha de periódicos desconhecidos”.

Um novo problema se impõe nesse momento: a grande quantidade de pequenas revistas que é necessário garimpar até se encontrarem as boas pautas. É muito ruído para pouco sinal, compara Mosher. Ele leva adiante a metáfora da prospecção de petróleo: “Chegar ao ouro negro de forma eficaz é o X do problema. Mas como resolver o dilema da revista obscura?”

Mosher aventa uma solução colaborativa para o problema. Uma saída possível, propõe, seria “reunir uma rede de leitores antenados com o mundo da ciência. Eles passariam um pente fino nessas revistas a cada dia, semana ou mês em busca das boas ideias, e depois as compartilhariam em um site do tipo wiki com coordenação editorial para jornalistas e blogueiros”.

A ideia é tão interessante quando difícil de ser posta em prática. Se alguém se aventurar a iniciar algo com esse espírito no Brasil, é fácil imaginar por onde começar: o portal SciElo, grande repositório que reúne artigos de 813 periódicos, a maior parte deles pouco mencionada nas páginas de ciências de nossos jornais e revistas. Muitas dessas publicações técnicas tratam de questões brasileiras e poderiam ajudar a diversificar o panorama do nosso jornalismo de ciência.

Quem se habilita?

Blog Questões de Ciência da Revista Piauí

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