Por Herton Escobar, Blog Imagine só! do Jornal o Estado de São Paulo.

A ONG Conservação Internacional anuncia hoje os resultados de uma busca internacional por espécies “desaparecidas” de anfíbios. De uma lista inicial de 100 espécies que não eram vistas há pelo menos uma década na natureza, apenas 4 foram encontradas nas várias expedições realizadas em 21 países (incluindo o Brasil) ao longo de cinco meses, entre agosto e dezembro de 2010.

Eu já escrevi recentemente aqui no blog sobre esse projeto (veja “O que um sapo pode fazer pelo Haiti?”) e sobre a dificuldade científica de se decretar uma espécie como extinta. Então não vou me repetir … O resultado completo das buscas, com o nome das espécies, fotos e tudo mais, pode ser visto neste link da Conservação Internacional.

Em vez disso, vou lançar uma outra discussão, mais ampla, usando este caso dos anfíbios como exemplo. Que diferença faz se uma espécie é extinta? Por que deveríamos nos importar com isso?

Digamos, por exemplo, que alguém quer construir uma grande hidrelétrica na Amazônia, e que para construir essa hidrelétrica será preciso destruir um trecho de rio no qual vive uma espécie rara de peixe, e que isso poderá causar a extinção dessa espécie – ou, no mínimo, colocá-la em risco de extinção. Por que deveríamos nos importar com isso? O que é mais importante: produzir energia elétrica para abastecer o desenvolvimento do país, ou proteger a biodiversidade?

(Qualquer semelhança a casos reais de hidrelétricas na Amazônia brasileira não é mera coincidência …)

No caso dos anfíbios, uma das espécies mais emblemáticas na lista da Conservação Internacional não foi encontrada: o sapo-dourado da Costa Rica (Incilius periglenes). A última vez que alguém viu um sapo desses foi em 1989, e é muito provável que ele esteja, de fato, extinto. Eu acho isso uma pena … mas você poderia muito bem perguntar: “E daí??”

Confesso que é algo difícil de se responder, sem correr o risco de soar romântico demais ou radical demais. Acho que ninguém perguntaria “E daí??” se estivéssemos falando de leões, elefantes, baleias ou outros animais obviamente belos e majestosos de uma forma geral. Mas quando se trata de animais menores, como os sapos, que muita gente considera “nojentos”, fica um pouco mais difícil … Que diferença faz na nossa vida se o sapo-dourado da Costa Rica está vivo ou morto? Na prática, realmente, nenhuma. Mas cuidado! Como eu coloquei no post anterior, sobre as espécies desaparecidas do Haiti, todas as formas de vida do planeta estão conectadas de uma forma ou de outra. Não podemos pensar na extinção de uma espécie como um evento isolado. Na maioria dos casos, ou quase sempre, a extinção de uma espécie é o sintoma de um problema muito mais complexo, crônico e globalizado, que é a degradação e o colapso dos ecossistemas naturais dos quais dependemos para a nossa sobrevivência.

Uma vez, muitos anos atrás, quando fiz uma reportagem sobre isso, um biólogo fez a seguinte analogia, que nunca mais esqueci: Imagine que o planeta Terra é um avião, e que cada espécie é uma peça deste avião. Algumas são mais importantes, outras menos, mas todas fazem parte de uma mesma máquina. O sapo-dourado talvez seja um mero parafuso. O avião não vai cair por falta dele. Mas se você perde parafusos demais, a coisa começa a ficar complicada. Talvez um motor pare de funcionar … talvez a bomba de combustível comece a engasgar … talvez o avião fique despressurizado … talvez a descarga do banheiro fique sem água … talvez o ar-condicionado fique louco … talvez o avião caia. Nunca se sabe.

Por mim, correndo o risco de parecer romântico demais, a extinção de uma espécie é uma tragédia porque eu admiro todas as formas de vida e acho que não temos o direito de destruir nenhuma delas, por mais sem graça ou “nojenta” que seja. (como exceção dos mosquitos … esses, realmente, se eu pudesse, exterminava na hora).

Concordo com o Robin Moore, líder do projeto da Conservação Internacional, quando ele fala sobre a extinção do sapo-dourado: “É muito triste perder uma espécie única como essa. Sinto que o mundo fica um pouco menos colorido com cada espécie que desaparece.”

A maioria das espécies que já foram extintas nas últimas décadas ou que estão em risco de extinção são desconhecidas da população em geral. Não têm nem nome popular. São conhecidas apenas pelos seus nomes científicos. Mas não se engane … elas são tão importantes e valiosas quanto as baleias, os pandas, as onças e as tartarugas. Nesse aspecto, a crise global de biodiversidade é uma crise quase silenciosa. Mas não se preocupe, que o estrondo final dela não passará despercebido.

Abraços a todos.

O sapo-dourado da Costa Rica, desaparecido (extinto??) desde 1989. FOTO: Enrique La Marca 

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