Chefe do painel do clima da ONU diz que mídia e público exageraram na reação a erros do IPCC e reafirma solidez da ciência do aquecimento

Rajendra Pachauri quebrou o gelo. Um ano depois de ter protagonizado a série de escândalos científicos que jogaram na lama a credibilidade do IPCC, o painel do clima da ONU, que ele preside, o economista indiano afirma que a crise está superada.Ele admite, porém, que os erros encontrados no Quarto Relatório de Avaliação do IPCC e o quase simultâneo episódio dos e-mails roubados no Reino Unido, conhecido como “Climagate”, alimentaram a onda de ceticismo que pôs o mundo mais longe de um acordo contra o aquecimento global.

 

As pressões pela renúncia de Pachauri têm sido intensas desde janeiro, quando ele admitiu que o IPCC errara em uma previsão apocalíptica sobre o degelo do Himalaia.

 

Em entrevista à Folha, concedida no escritório do IPCC na conferência do clima de Cancún, Pachauri atribuiu à imprensa grande parte da culpa pelos escândalos e disse que não pretende sair do cargo antes de 2014. “Ou 2015.” Leia a seguir.

 

– O Climagate completou um ano. O sr. acha que o escândalo ajudou a alimentar a maré de ceticismo que adiou a perspectiva de um acordo do clima?

 

Claro que houve um efeito, não há dúvida, mas lembre-se de que os três comitês que investigaram o assunto concluíram que não houve fraude por parte dos cientistas. Mas a maneira como os emails foram hackeados e os relatos foram publicados na mídia tiveram um impacto negativo. E eu acho que vai levar algum tempo para as pessoas descobrirem que tudo aquilo foi espúrio.

 

– Mas houve dois escândalos, por assim dizer. Um foi o dos e-mails, e o outro foram os erros no 4º Relatório de Avaliação do IPCC. Isso não afetou a credibilidade do painel?

 

De novo, eu diria que o público provavelmente não tomou tempo suficiente para olhar as coisas de modo objetivo. Sim, nós cometemos um erro na questão das geleiras do Himalaia, admitimos isso. Mas nada elimina o fato de que as geleiras estão derretendo no mundo inteiro. Isso também se aplica a todas as grandes conclusões do relatório: são fortes, robustas e mesmo incontroversas.

 

– O sr. reconhece uma certa arrogância de sua parte ao negar inicialmente o erro?

 

No momento em que esse erro apareceu, nós agimos em três ou quatro dias. Consultamos os autores do relatório e prontamente admitimos o erro. Infelizmente eu não me lembro de nenhuma declaração que tenha mostrado arrogância.

 

– Quais são as lições que o sr. tira desse episódio?

 

Várias. Nós temos de criar capacidade de comunicação com o público, ela precisa ser muito melhor do que é hoje, com a imprensa também. Precisamos de mais aderência aos processos e às práticas do IPCC. Tivemos uma reunião com os autores principais do quinto relatório de avaliação, e eles receberam instruções precisas sobre como lidar com literatura que não tem peer-review.

 

– Recentemente, em agosto, o IAC (painel das academias de ciências do mundo) publicou uma série de recomendações sobre como melhorar o trabalho do IPCC.

 

Sim, eles fizeram, a nosso pedido, uma revisão dos procedimentos do IPCC e completaram o relatório em agosto. Todos os governos do mundo decidiram tomar decisões sobre as recomendações do IAC e vão agir no sentido de implementá-las.

 

– Então nada foi implementado ainda?

 

Cada uma dessas recomendações requer delineações claras de como elas serão implementadas, porque os procedimentos do IPCC são bem complexos.

 

– O sr. acha que os cientistas têm culpa por não terem ido a público defender suas conclusões quando os céticos do clima atacaram?

 

Eu estive na academia por muito tempo e não hesito em dizer que cientistas não são os melhores comunicadores do mundo. Precisamos de uma estratégia para compensar essa deficiência. Concordo que talvez precisássemos ter feito um melhor trabalho na comunicação de nossas descobertas, mas no secretariado do IPCC não temos essa capacidade. O secretariado do IPCC tem dez pessoas, e por 17 anos, até 2005, tinha apenas cinco. Como presidente do IPCC, eu não tenho poder de contratar uma pessoa sequer.

 

– Que papel a imprensa teve na confusão do ano passado?

(Pausa) Não sei bem o que dizer, mas acho que essas coisas vêm em ondas. Se você voltar a 2007, quando o AR4 foi publicado, havia um tom bem diferente em relação aos nossos relatórios. O “New York Times” publicou uma manchete dizendo que aquele era o relatório mais forte já feito pelo IPCC, e não havia nada senão loas ao que foi feito. Agora nós vimos o outro lado dessa onda. Acho que isso também será substituído por coisas positivas, é só uma questão de tempo.

 

– Por que o sr. escreveu um memorando aos autores do Quinto Relatório de Avaliação recomendando que eles ficassem longe da imprensa?

 

Para proteger o IPCC. Sessenta por cento desses autores são novos no IPCC. Você não pode ter autores que são novos falando em nome do painel, mas eu esclareci logo depois que eles podem e devem falar das suas próprias pesquisas. Acho que é essencial que os cientistas se comuniquem com a imprensa, mas se eles recebem uma pergunta sobre o IPCC, existe uma estrutura para isso. Lamento que tenha sido mal compreendido.

 

– O sr. está há oito anos no cargo. Quando vai sair?

 

Em 2014, quando terminar o quinto relatório. Ou 2015, se o painel quiser.

(Cláudio Ângelo)

(Folha de SP, 8/12)

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