Brasil se destaca num mundo imóvel contra o CO2

O Brasil foi o país mais bem avaliado no índice de performance sobre o combate às mudanças climáticas, divulgado na segunda-feira (6/12) em Cancún pelas redes Climate Action Network e Germanwatch.

 

O bom desempenho, porém, não foi considerado suficiente – as três primeiras posições ficaram vagas, já que nenhuma nação avaliada tem feito o suficiente para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. O país deve o bom resultado, em parte, ao vácuo deixado por outros grandes emissores, sem políticas efetivas para cortar CO2.

 

China e EUA, os dois maiores poluidores do mundo, amargaram, respectivamente, a 52ª e 53ª posições.

 

As emissões da China foram as que mais cresceram. Os EUA de Obama não aprovam a lei de mudanças climáticas. E a Europa, antes na vanguarda da luta contra alterações no clima, recuou de suas propostas mais ousadas e congelou as discussões climáticas.

 

O levantamento, realizado por 190 especialistas, avalia o setor de energia de 60 nações. Juntas, elas respondem por 90% das emissões de CO2. Embora a questão do desmatamento não tenha sido analisada em detalhe, o líder do estudo, Jan Burck, disse que o fato de o governo brasileiro implementar medidas para combater o problema pesou no resultado.

 

O levantamento, porém, ressalta que não é possível saber o quanto essa redução foi motivada pela crise financeira mundial.

 

– O Brasil ocupou a melhor posição no ranking, o que não significa que está fazendo o suficiente. Significa que está fazendo melhor do que outros países – pondera. – A redução do desmatamento pode servir de exemplo, mas somente se essa tendência for mantida.

 

Metas maiores que as recomendadas

 

Professora de engenharia de transportes da Coppe/UFRJ e membro da diretoria do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), Suzana Kahn diz que o Brasil precisa assumir outros compromissos:

 

– O que me preocupa são as modificações mais estruturais, que nos levariam para um novo modelo de desenvolvimento. Precisamos colocar o Brasil na economia verde, de baixo carbono. Isso não está acontecendo. Por mais estranho que possa parecer, quem mais aposta nesta área é China e EUA, exatamente os maiores poluidores e os que não estão nem aí para a Convenção do Clima e seus acordos – afirma ela, ex-secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente.

 

Para o diretor da Coppe/UFRJ Luiz Pinguelli Rosa, que acompanha a COP-16 em Cancún, o ranking mostra como o Brasil foi catapultado ao centro das discussões ambientais.

 

– A Conferência de Copenhague não deu certo, mas o desempenho brasileiro nas negociações nos alçou a outro patamar – opina. – Agora, a lista mostra como nossos esforços para reduzir o desmatamento são reconhecidos. Mas o vácuo nas três primeiras posições é lamentável. O levantamento lembra que, este ano, o Brasil anunciou uma redução de 36,1% a 38,9% nas emissões de gases-estufa até 2020.

 

Essa meta é considerada ambiciosa, por ser superior àquela recomendada pelo IPCC para os países em desenvolvimento (de 15% a 30%). Na semana passada, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou que entre agosto de 2009 e julho de 2010 foram desmatados 6.451 km2, a menor taxa registrada desde o início das medições, em 1988.

(Catarina Alencastro e Renato Grandelle)

(O Globo, 7/12)

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