A revolução industrial foi a plataforma de decolagem do sistema atual de produção intensiva e em grande escala, comércio global e consumo exacerbado. Como corolário também do salto quântico das emissões de gases de efeito estufa. Em ambos os casos, os processos têm nome e sobrenome, para dizê-lo de algum jeito. A exploração e o consumo de combustíveis fósseis, florestas, terras agrícolas e outros recursos do planeta –geralmente localizados em países do Sul e muitas vezes apropriados pelo poder e a força- permitiram aos países industrializados atingir o poder econômico que hoje possuem.

A histórica dívida ecológica dos países do Norte, gerada pela ocupação de territórios e a apropriação barata e destruição dos bens naturais no Sul, transladou-se ao clima com a poluição por emissões de dióxido de carbono e a ocupação do espaço atmosférico, abrindo o caminho para a dívida climática.

O Professor Stephen Pacala, da Universidade de Princeton, citado em um artigo de Barry Saxifrage[i], calculou as emissões por pessoa de 6.500 milhões de pessoas, chegando à conclusão de que 3.000 milhões de pobres não emitem quase nada. Também por país a diferença é muito grande. Exemplos de emissões anuais de toneladas de carbono por pessoa: Zimbábue 0,93; Estados Unidos 19,66; Canadá 17,86; Índia 1,17; China 3,7. Isto é, Canadá ou Estados Unidos emitem aproximadamente 20 vezes mais carbono per capita que uma pessoa média em um país do Sul como Zimbábue.

Em nível mundial, os países que estão entre o 8% mais rico, emitem 50% do total de emissões e os que estão no 15% mais rico emitem 75%. O 85% remanescente da humanidade emite apenas 25% do total de emissões.

Este quadro leva a considerações interessantes com referência às medidas para enfrentar a mudança climática: quem deve reduzir de maneira significativa as emissões é o 15% mais rico e a maior parte da redução deve provir do 8% mais rico. E isso simplesmente porque são os que estão utilizando quase todos os combustíveis fósseis.

Mas a tendência não vai por esse caminho. Apesar de que o próprio Todd Stern, um dos principais negociadores dos Estados Unidos sobre clima em Copenhague reconheceu o papel histórico de seu país no nível atual de concentração de emissões, apressou-se a advertir que rejeita categoricamente qualquer sentimento de culpa ou reparação[ii]. Justamente no momento em que deveriam assumir sua responsabilidade e atuar para enfrentar a crise social, ambiental e planetária! Essa recusa ficou demonstrada em 2009, na fracassada Cúpula de Copenhague, plasmada no lastimoso “acordo” que os próprios países industrializados criaram para exigir-se, não zero emissões, mas zero compromisso para reduzi-las.

Até agora, no longo processo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, o que tem surgido são apenas distrações –no melhor dos casos- e soluções falsas que se afastam totalmente do único caminho viável: mudar os modelos de produção, comerciais e de consumo, controlados atualmente por interesses empresariais, que exigem um consumo excessivo de combustíveis fósseis e que geram situações de desigualdade e injustiça. Mudar o sistema, não o clima.


[i] The Rich: Our Biggest Carbon Problem, Barry Saxifrage, 12 de fevereiro de 2009,

http://www.saxifrages.org/eco/go19a/The_Rich_Our_Biggest_Carbon_Problem

[ii] Broder 2009 citado em “The End of ‘Cheap Ecology’ and the Crisis of ‘Long Keynesianism’,” Farshad Araghi, 23 de janeiro de 2010, Economic and Political Weekly, distribuído por Larry Lohman.

Fonte: Boletim 160 (Novembro 2010) do WRM

Para saber mais:

A quantidade de carbono que cada pessoas emite é geralmente tratada como a “pegada de carbono”, conceito relacionado a um outro conceito, o de “Pegada Ecológica”. Acesse o site do WWF e leia mais sobre este conceito e calcule a sua pegada ecológica.

http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/o_que_e_pegada_ecologica/

Para saber mais:

Mudanças Climáticas e a Dívida Externa dos Países Pobres

Conversão de dívida em proteção a florestas.

REDD, uma alternativa para diminuir a dívida que temos com a África?

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