A descrição da variabilidade morfológica, tanto interpessoal com interpopulacional, pertence à esfera das aparências, ao chamado mundo fenotípico. Quando penetramos no mundo genômico, o quadro muda consideravelmente. Subjacente à individualidade morfológica facilmente observável nas pessoas, existe de fato uma individualidade genômica absoluta. Estudos em DNA demonstram que cada ser humano é genomicamente diferente de todos os outros da Terra, com exceção de gêmeos idênticos. Em outras palavras, a variabilidade genômica interpessoal é imensa.

No entanto, como veremos em detalhe adiante, a variabilidade genômica interpopulacional é relativamente muito menor. A representação genômica da variabilidade entre os grupos humanos dos diferentes continentes – ou seja, entre as ditas “raças” humanas – é mínima.

Os traços físicos contrastantes das populações continentais humanas, responsáveis pelas características icônicas das raças (pigmentação da pele, cor e textura dos cabelos, formato dos olhos, nariz, boca e estrutura facial), na realidade dependem de um número muito restrito de genes e representam adaptações morfológicas superficiais ao meio ambiente, sendo, assim, produtos da seleção natural.

Acredita-se, por exemplo, que dois fatores seletivos servem para adaptar a cor da pele aos níveis de radiação ultravioleta do sol de um determinado ambiente geográfico: a destruição do ácido fólico, quando excessiva, e a falta de síntese de vitamina D3 na pele, quando ela é insuficiente. A cor da pele será determinada pela quantidade e pelo tipo do pigmento melanina na derme, o que é controlado por poucos genes (de quatro a seis), dos quais o mais importante parece ser o gene receptor do chamado hormônio melanotrópico.

Da mesma maneira que a cor da pele, são traços literalmente superficiais outras características físicas extensas, como o formato da face, dos olhos, dos lábios, do nariz e a cor e a textura do cabelo. Embora não se conheçam os fatores geográficos locais responsáveis pela seleção dessas características, é razoável assumir pela seleção dessas características, é razoável assumir que os traços morfológicos espelhem adaptações ao clima e outras variáveis ambientais de diferentes partes da Terra.

Resumo da ópera: as diferenças icônicas das chamadas “raças” humanas correlacionam-se bem com o continente de origem, mas dependem de uma porção ínfima dos cerca de 20 mil genes estimados do genoma humano e não têm relevância alguma em termos de capacidade intelectual e comportamento.

Em outras palavras, pode ser fácil distinguir fenotipicamente um europeu de um africano ou de um asiático, mas tal facilidade desaparece por completo quando se procuram evidências dessas diferenças “raciais” no genoma das pessoas.

Trecho do livro: PENA, Sérgio D. J. Humanidades sem Raças? São Paulo: Publifolha, 2008 (série 21). 69p.

trecho da página 28 a 30.

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