O surgimento da Cordilheira dos Andes não apenas inverteu o curso de rios que hoje cortam a Amazônia, mas criou o ambiente favorável para a diversificação de espécies, que fazem da região hoje uma das mais biodiversas do mundo. Claro que este não foi o único fator a impulsionar a variedade na fauna e flora da região. Ocorreram eras glaciais, alterações mais recentes no relevo, mas para os pesquisadores que publicaram o artigo, a história geológica pode dar uma grande contribuição para compreensão da Amazônia hoje.

Há até 10 milhões de anos, a Amazônia era bem mais extensa, ia do Paraná ao Norte da Colômbia. Nos rios,  que corriam para o Pacífico e também naqueles que já haviam encontrado o caminho para o Leste, em direção ao Atlântico, viviam bagres, piranhas e acarás. Havia uma fauna diversificada de mamíferos, que incluía roedores, marsupiais e antepassados das preguiças e de animais com casco. Mais ao sul, também eram encontradas tartarugas e plantas que possivelmente vieram do sul, avessando a ligação que havia entre a América do Sul e Austrália e Antártida.

Os Andes começaram a se erguer há 23 milhões de anos, causando a primeira grande diversificação moderna de plantas e animais. Mas as montanhas ainda continuariam a se elevar até fechar o istmo do Panamá, há 3,5 milhões de anos, causando ao longo deste longo período novos picos de diversificação biológica.

A antiga fauna nos estuários, representante de ambientes marinhos, foi substituída. Uma grande zona de lagoas e plantas surgiu na Amazônia Ocidental, que foi colonizada por moluscos e ostras. Ali também havia gaviais, jacarés e tartarugas. O  maior jacaré já conhecido, o Purussaurus, que chegava a 12 metros de comprimento, viveu durante este período nesta região pantanosa. A floresta úmida havia sido fragmentada, mas já se assemelhava a atual vegetação amazônica.

Com o passar do tempo, a região se transformou em um ambiente semelhante ao Pantanal, que foi chamado Acre. As planícies de alagação foram dominadas por capim e habitados por uma grande variedade de preguiças e tamanduás. A maioria dos moluscos não se adaptou a este ambiente fluvial, mas permaneceram tartarugas, jacarés e gaviais.

Entre 7 e 5 milhões de anos atrás, as zonas alagadas foram substituídas por um ambiente de floresta. A Amazônia Ocidental, então, já estava com as características geográficas conhecidas hoje. Os antepassados do boto vermelho já haviam nadado em direção a leste, e viviam nesta região.

Após os Andes já terem se elevado, há 3,5 milhões de anos, as mudanças no ambiente continuaram a ocorrer. Vieram eras glaciais e restrições que levaram  à extinção da megafauna. O relevo segiu mudando, houve elevação do terreno, alterações nos padrões dos rios. A ligação criada com o istmo do Panamá permitiu a migração de espécies vindas do norte.  Os Andes também fertilizam os solos da Amazônia, contribuindo para a alta produtividade do ecossistema. E continuavam a ocorrer, como há milhões de anos, migrações pelo Oceano, com espécies vindas do Norte e também da África.

Mas o papel da Cordilheira dos Andes na biodiversidade ainda pode ser reconhecida. Atualmente, uma área de aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados, na Amazônia Ocidental, onde já foi um grande pântano, possui a maior biodiversidade de toda a Amazônia. Nesta região, alterada pela Cordilheira dos Andes, a variedade de plantas e animais e bem maior do que em outras áreas mais antigas da Amazônia.

Por Vandré Fonseca, Fonte O Eco Amazônia

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