ONU diz que instituições financeiras temem mais a perda de diversidade do que o terror

Para o mercado, os riscos financeiros decorrentes da perda de espécies e de ecossistemas são uma preocupação maior do que o terrorismo internacional, revelou um relatório do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Pnuma). Ele foi apresentado na quarta-feira (27/10) na 10ª Conferência das Partes da Convenção de Biodiversidade, em Nagoia, Japão.

 

Perda de diversidade pode significar redução significativa dos estoques pesqueiros. Já a destruição de ecossistemas é traduzida, por exemplo, na degradação dos solos, desastrosa para a agricultura. Outros problemas destacados foram a escassez de água e a poluição.

 

O estudo é uma das derradeiras tentativas da ONU para pressionar governos a um acordo significativo. A conferência termina amanhã e corre o risco de se tornar um fracasso maior do que a última grande cúpula ambiental da ONU, a 15ª Conferência Internacional sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em dezembro passado, em Copenhague.

 

A próxima grande reunião ambiental, a COP-16, em Cancún, México, é vista sem esperança antes mesmo de começar, em 29 de novembro.

 

Dificuldade para estimar valores

 

O relatório estima que o declínio da biodiversidade pode ter um impacto de US$ 10 bilhões por ano para bancos, investidores e seguradoras.

 

O diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner, disse que o melhor exemplo de perdas do tipo foi o desastre ambiental no Golfo do México causado pelo vazamento de óleo de uma plataforma da British Petroleum. Não só a empresa perdeu, como também tiveram prejuízos seguradoras e outras petroleiras, afetadas pela suspensão temporária da prospecção de óleo no Golfo.

 

– Há uma nova percepção de risco e uma preocupação emergente em instituições financeiras. Trata-se de uma mudança na mentalidade do setor, que não diz respeito apenas às empresas diretamente dependentes de recursos naturais. O mercado começou a perceber a importância econômica da biodiversidade e dos ecossistemas para os negócios e sua credibilidade e reputação – afirmou Steiner.

 

O principal autor do relatório, Richard Burrett, disse que é necessário desenvolver uma nova forma de avaliação de risco, que leve o valor dos serviços ecológicos em conta.

 

– Florestas e água são consideradas “externalidades” que não entram nas contas. Só que agora não é mais possível desconsiderá-las, pois as perdas estão se avolumando – destacou Burrett.

 

Para o relatório, os especialistas a serviço da ONU analisaram dados de 3.000 das maiores corporações do mundo. Descobriram que em 2008 elas foram responsáveis por um custo ambiental de US$ 2,15 trilhões, o equivalente a 7% de seu faturamento bruto e cerca de um terço de seus lucros líquidos.

 

O estudo destaca que a consciência do mercado sobre a importância da biodiversidade ainda está num estágio inicial, principalmente porque continua sendo muito difícil estimar valores para os serviços prestados pela natureza.

(O Globo, 28/10)

Anúncios