Sabe aquele espinho que gruda na barra das calças, nas meias e até no cadarço do tênis quando se caminha pelos campos do Brasil? Aquele conhecido como picão-preto? Pois bem, trata-se da semente de uma planta cosmopolita – ou seja, comum em várias regiões do mundo – de nome científico Bidens pilosa. A par de infernizar a vida de quem circula fora do asfalto e de ser considerada erva daninha pelos agricultores, a espécie é uma promessa farmacológica

Na cultura popular, há muito tempo o chazinho de picão-preto faz parte do arsenal contra hepatite. Também tem quem use contra icterícia em recém-nascidos e infecções urinárias. Mas a principal aposta de quem faz pesquisas em Farmanguinhos, o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é no potencial contra a malária

Também conhecida como febre terçã, febre palustre, paludismo ou maleita, a malária mata cerca de 1 milhão de pessoas por ano no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, e acomete pelo menos 800 mil brasileiros anualmente, conforme dados do Ministério da Saúde. É uma doença crônica com fases agudas provocada pela presença de parasitas do gênero Plasmodium no sangue, transmitidos de pessoas ou animais infectados pelos mosquitos do gênero Anopheles. O doente tem acessos de febre alta com calafrios durante os quais ocorre a destruição de grande quantidade de hemácias, as células sanguíneas responsáveis pelo transporte de oxigênio. 

Já existem medicamentos para o tratamento de malária, como os derivados da quinina, conhecidos desde o Século XVII e, hoje, os coquetéis com misturas destes com derivados de artemisinina, também produzidos por Farmanguinhos. Mas o paciente não se cura e o problema é a recaída ou recidiva, como preferem os médicos. Aí, em geral, os mesmos medicamentos não têm tanta eficiência e o ideal seria fazer o tratamento dos pacientes com outras drogas. 

“Considero o picão-preto terapeuticamente promissor contra malária e, por enquanto, ainda não identificamos seus efeitos tóxicos, ou seja, é uma espécie candidata a gerar um medicamento com melhor desempenho do que as opções atuais”, diz Leonardo Lucchetti, coordenador da pesquisa com a espécie em Farmanguinhos, ressalvando que o caminho até o medicamento chegar ao mercado é longo e depende de investimentos e testes. A planta já teve seu perfil químico avaliado, assim como alguns mecanismos de ação propostos. No entanto, tais informações não devem, ainda, ser reveladas, devido ao interesse na patente. 

Nos testes feitos em laboratório, os extratos de picão-preto evitaram a morte de camundongos com malária. “Mas ainda não temos a prova definitiva se foi por aumentar a imunidade do animal – e, portanto, favorecer o controle da doença pelo próprio organismo – ou por eliminar diretamente a malária”, destaca. 

A equipe de Farmanguinhos permanece em busca de um extrato contra malária, talvez associando o picão-preto a outros compostos. “Estamos trabalhando em cima da terapêutica, porém o combate à malária não se dá só no campo da terapia”, adverte a pesquisadora Dulcinéia Teixeira, da mesma equipe: “É preciso trabalhar com prevenção e educação também”. 

Além de aproveitar as substâncias ativas do picão-preto, quem sabe não é o caso de imitarmos também a estratégia de multiplicação da plantinha, capaz de produzir o ano inteiro e espalhar sementes para todo canto, de carona em quem passa por perto? É só usar a boa informação como semente… 

Fonte: Planeta sustentável, Blog Biodiversa, por Liana John

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