Rá!

O posicionamento do Xico Graziano não é neutro (a quem ache), por um simples fato, ser neutro não é apenas, ao comentar um fato, mostrar pontos dos dois lados. O problema neste texto é que ele omite pontos que negariam quase por completo a argumentação dele.

Ele cita apenas os pontos em que o agronegócio e agricultura familiar são similares, entre outras coisas, desmatamento. Mas ele não cita outros aspectos importantes.

Texto publicado também no site Ecodebate

O que é pior? Você desmatar para a produção de alimentos (como feijão, que 75% da produção advém de propriedades familiares), ou até mesmo soja e gado, que é a fonte de renda para 80 famílias (número hipotético) de um assentamento ou este desmatamento ocorrer dentro de um latifúndio, que toda a renda vai para uma pessoa?

[Para entender este Post leia o texto “Motoserra sem ideologia” aqui]

Alguém logo pondera, mas os latifúndios também geram empregos…Sim, boa parte com salários baixíssimos, quando não trabalho escravo, e o número de pessoas envolvidas é muito menor. Alguém ainda poderá argumentar: mas o latifúndio aumenta o PIB. Se PIB fosse sinal de desenvolvimento e qualidade de vida, o Brasil seria bem diferente.

Quando se prioriza a exportação ao invés da produção de alimentos (um fato que pode acontecer com os biocombustíveis, por exemplo), pode gerar inseguridade alimentar que está relacionada a outro problema, o de considerar comida como um commodity. Sugiro a leitura da reportagem de José Arbex Jr., “1 Bilhão de Mortos-Vivos Contra as Cutrales do Mundo”, publicada na Revista Caros Amigos de novembro de 2009. Com este texto, acho que dá para ver outro ponto de vista para quem acha ser possível conciliar o agronegócio com a agricultura familiar…

O mais impacta a nossa vida? O kg da carne, ou o Kg do feijão? Alguém já viu um latifúndio de alface? (a propósito: https://naraiz.wordpress.com/2009/10/20/alguem-ja-viu-um-latifundio-que-produza-alface/)

Sobre os indígenas. É claro que o mito do bom selvagem é fantasioso, assim como o mito da natureza intocada (não faz mais sentido atualmente). Agora, que os índios têm uma relação muito diferente com o meio ambiente, isso a maioria tem. Da mesma forma, o Xico Graziano tenta parece imparcial no seu ataque aos indígenas, colocando que eles também degradam a natureza, mas deixa o outro lado da história escondido.

Sim! Eles degradam, mas nem todos, e nem na mesma intensidade (e se comparar com o homem branco…). Esta é uma visão generalista e grosseira. É a mesma coisa de fazer pré-conceitos de uma pessoa baseando-se apenas na cor da pele. Este tipo de pensamento tipológico baseou por muito tempo o racismo e ainda está amplamente difundido.

Existem grupos indígenas que são exemplo de relação com o meio ambiente. Sobre isto, peço desculpas, pois faço aqui auto-propaganda, leia os textos:

https://naraiz.wordpress.com/2010/04/20/dia-do-indio/

https://naraiz.wordpress.com/2010/03/22/contribuicao-dos-indigenas-para-a-sociedade-brasileira/

https://naraiz.wordpress.com/2010/03/11/o-artesanato-dos-indios-kisedje-e-a-operacao-moda-triste-do-ibama-em-canarana-mt-aspectos-socioambientais/

https://naraiz.wordpress.com/2010/03/10/o-artesanato-dos-indios-kisedje-e-a-operacao-moda-triste-do-ibama-em-canarana-mt-aspectos-legais/

Informações muito bem fundamentadas levaram, por exemplo, ao Holocausto, usando a idéia da Eugenia, que era baseada em informações cientificas (desbancadas depois) e nem por isso eram verdadeiras…Com isto eu quero dizer que informações bem fundamentadas (como afirmam que são as do Graziano) não necessária são verdade. A visão dele é da manutenção do status quo. Manutenção de uma aristocracia rural, da concentração de terras e renda, pois se a agricultura familiar degrada o mesmo que a comercial, por que investir nela?

Este é o ponto, quando se apresenta parte da história na verdade está defendendo o que realmente quer defender. Um exemplo disto é o site Agrobrasil (http://www.agrobrasil.agr.br/home/) que traz um texto que começa assim: “Estou convencido de que todos os seus editoriais no ‘O Estado de São Paulo’ merecem, além da atenta leitura, manifestação de aplauso e adesão (…).”, referindo-se a um outro texto do Xico Graziando.

Aliás, um ponto importante, encontrar informação séria, com preocupação socioambiental, na grande mídia é fato raro, para não dizer impossível. Daí, muito cuidado com textos, mesmo editoriais, de grandes jornais como o ‘O Estado de São Paulo’.

A discussão é bem mais que simplesmente conceitual ou sobre conjunturas. É política, eleitoreira e, sobretudo, defesa de interesses próprios.

A propósito disto, o discurso do Xico Graziano é de um ruralista,o mesmo da Senadora Kária Abreu, e recentemente do Dep. Aldo Rabelo, que tem atacado o código florestal. A bancada ruralista se vale de muitos meios para atingir seus objetivos, mudanças legais, lobby, e opinião pública. O texto “Motoserra sem ideologia” é uma forma de convencer as pessoas da inutilidade da reforma agrária no País.

Este texto também foi publicado no site ecodebate: http://www.ecodebate.com.br/2010/06/08/a-ideologia-da-motoserra-sem-ideologia-artigo-de-valdir-lamim-guedes/

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