[EcoDebate] Desde 1971 comemora-se, no dia 20 de novembro, o “Dia Nacional da Consciência Negra”. Nessa data, em 1695, foi assassinado Zumbi, um dos últimos líderes do Quilombo dos Palmares, que se transformou em um grande ícone da resistência negra ao escravismo e da luta pela liberdade. O 20 de novembro foi instituído como data de referência para o movimento negro em contraposição ao 13 de maio, quando foi decretada a abolição da escravatura, a chamada Lei Áurea, pela princesa Isabel, em 1888. O 13 de maio geralmente é visto como a celebração da generosidade de uma branca em relação aos negros, em vez de enfatizar a própria luta dos negros por sua libertação.

Um dos objetivos deste dia é mostrar o quanto o país está marcado por diferenças e discriminações raciais, já que o tema do racismo quase sempre foi negado, dentro e fora do Brasil. Nesta data, somos todos convidados a refletir sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.

[Texto publicado pelo Boletim Diário Ecodebate de 25/nov/2009, para ler a continuação do texto clique no link  abaixo]

“O Brasil nunca teve uma segregação racial formal, institucionalizada. Mas não teve porque não precisou, estava na regra social, ela era praticada, não precisa ser institucionalizada”1. E um fator que ameniza as tensões sociais é a miscigenação: “A mestiçagem criou no Brasil uma sensação de harmonia e acomodação dos diferentes povos que constituíram esse povo, povo brasileiro. Uma aparente afetividade entre os diferentes”2. O preconceito no Brasil é uma coisa feita cotidianamente, no entanto, é mascarado, ás vezes a discriminação está menos nas palavras e mais no jeito de olhar, em atitudes, desconfiança.

A idéia de valorizar a cultura e história dos negros no Brasil não é um fator que reforça o racismo. Isto vem de encontro com a própria construção complexa do povo brasileiro. É dizer: “Sou negro, sou brasileiro, quero meus direitos e ser respeitado como sou”. É assumir a ascendência e a história dos negros. É estar ciente da contribuição para a diversidade de nossa sociedade. Orgulho de uma ascendência que não precisa ser maquiada.

Com este discurso temos a busca de um ideal, o da diversidade real, da aceitação das diferenças culturais e da igualdade entre as pessoas. Apesar do foco deste dia ser o racismo contra afro-descendentes, pode ser visto também como o dia de todos os brasileiros e brasileiras que lutam por uma sociedade democrática de fato e igualitária, unindo-os num projeto de nação que contemple a diversidade própria do nosso processo histórico. Um projeto de nação deste tem por trás a idéia de sustentabilidade, em várias dimensões.

Segundo Ignacy Sachs3 (1993 apud Nunes, 2005)4 a sustentabilidade tem cinco dimensões: social, econômica, cultural, ecológica e espacial. A dimensão social da sustentabilidade está relacionada à outra idéia de sociedade, na qual o “ser” é mais importante que o “ter”, maior distribuição do “ter”, visando diminuir a distância socioeconômica entre as pessoas. A dimensão econômica refere-se a um equilíbrio entre as nações (Norte/Sul), maior transferência de renda, que os avanços macrossociais são mais importantes que o lucro das empresas. A dimensão ecológica focada num uso responsável dos recursos naturais, incluindo com o aumento de tecnologia para diminuir os impactos sobre o meio ambiente. A espacial relaciona-se à busca de uma configuração rural-urbana mais equilibrada, com melhor distribuição territorial de assentamentos humanos e atividades econômicas.

E uma quinta dimensão, a cultural, relacionada ao respeito das especificidades de cada local, valorizando a cultura deste. Ao dar ênfase nestas dimensões, o autor deixa claro que para alcançarmos a sustentabilidade temos que valorizar as pessoas, seus costumes e saberes. Por exemplo, neste processo de valorização, a escola tem um papel central, porque durante a abordagem educativa deve-se demonstrar uma equiparidade entre as culturas, sem uma escala de importância, pois ao valorizar uma cultura em prol de outras estamos recriando relações de dominação e submissão.

Ao dar esta visão a sustentabilidade, Sachs deixa escancarado que ao se falar neste tema deve-se ter uma visão holística dos problemas da sociedade, não focando apenas no meio ambiente e recursos naturais. Pensar em sustentabilidade é pensar em algo muito mais profundo, que visa uma verdadeira metamorfose do modelo civilizatório atual.

O desafio relacionado à questão racial no Brasil tem um problema tão sério quanto às diferenças socioeconômicas entre brancos e negros5 e o preconceito velado de cada dia, é que a cobertura dos assuntos de interesse da população negra no Brasil pelos grandes jornais e revistas reproduz posições contrárias a ações afirmativas, como cotas em universidades e o reconhecimento de terras remanescentes de quilombos5. Esta é uma atitude muito negativa, porque além de criticar medidas tomadas para reduzir as diferenças sociais no Brasil, ainda influenciam a grande massa com o discurso de que as ações afirmativas são racistas ou então que o racismo não ocorre no país.

Um projeto de nação que vise um desenvolvimento socioeconômico mais sustentável passa por um novo posicionamento em relação às questões raciais no nosso país, somos indiscutivelmente miscigenados e temos que aceitar esta condição como um ponto que nos aproxima e também que nos deixa mais fortes.


Colaboração deValdir Lamim Guedes Junior, Mestrando em Ecologia de Biomas Tropicais, Universidade Federal de Ouro Preto, para o EcoDebate, 25/11/2009 .


Notas:

1Sevcenko, Nicolau. Entrevista para a Frente 3 de fevereiro. In: Zumbi Somos Nós: democracia racial, pág 56. Disponível em <http://www.frente3defevereiro.com.br/>, acesso 22/Nov/2009.

2Zumbi Somos Nós: democracia racial, pág 57. Disponível em <http://www.frente3defevereiro.com.br/>, acesso 22/Nov/2009.

3Sachs, Ignacy. Estratégias de Transição para o século XXI: Desenvolvimento e Meio Ambiente. São Paulo: Studio Nobel. 1993.

4Nunes, Ellen Regina Mayhé. Alfabetização Ecológica: um Caminho para a Sustentabilidade. Porto Alegre: Ed. Do Autor. 2005.

5Dossiê EcoDebate: Consciência Negra e o ‘retrato’ da desigualdade. Disponível em <http://www.ecodebate.com.br/2009/11/21/dossie-ecodebate-consciencia-negra-e-o-retrato-da-desigualdade/&gt;, acesso 21/Nov/2009.


Link para este texto no site do Ecodebate:

http://www.ecodebate.com.br/2009/11/25/a-consciencia-negra-dentro-do-debate-da-sustentabilidade-artigo-de-valdir-lamim-guedes-junior/

 


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