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“Agir localmente, pensando globalmente”. Este jargão do movimento ambientalista mundial tem sido repetido insistentemente pelos chamados “sensibilizadores”, porém a sua essência muitas vezes é deixada de lado. Pois as questões ambientais exigem ações imediatas, planejadas, exigidas por todos e desenvolvidas tanto individual, quanto coletivamente. Digo isto, pois se não é possível mudar o mundo, fazer o que esta ao nosso alcance é a nossa contribuição para que algo mude. Desta forma, o que fazemos em casa, no bairro e em nossa cidade pode ser uma grande contribuição a ser somada com a das outras pessoas.

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A política nacional para o meio ambiente é uma das formas que o povo brasileiro tem de dar rumo ao nosso desenvolvimento, conservando o meio ambiente, e esta contribuição é importante para todo o planeta, sendo o Brasil um dos países com maior potencial no combate às mudanças climáticas e proteção da biodiversidade.

O desenvolvimento é divulgado como única saída para o país, e qualquer alternativa é aparentemente utópica para as elites e a grande massa que acreditam que o consumo é a única forma de gerar renda. Umas das opções para a manutenção do programa governamental para o desenvolvimento econômico se concentra em um dos poucos pontos em que poderíamos ser orgulhosos da política ambiental brasileira, a legislação, considerada avançada e bastante restritiva, no entanto, cumprida parcialmente. Se esta fosse realmente cumprida, a situação da Mata Atlântica seria muito diferente. Ela apresenta cerca de 7,91% de sua cobertura original em remanescentes florestais com mais de 100ha (cada hectare equivale a um campo de futebol), considerados de tamanho compatível com a manutenção de parte considerável das espécies da fauna e flora por um médio período de tempo (100 anos). Por causa desta reduzida cobertura vegetal a Mata Atlântica é chamada por muitos de “Moita” Atlântica.

A Mata Atlântica pode ser considerada a prima rica, pois concentra mais de 70% da população brasileira e a maior parte da produção industrial e, consequentemente, é responsável pela maior parte da renda gerada no País. Pensando desta forma, a Amazônia, que ainda mantém mais de 70% de sua cobertura natural, precisa ser devastada para gerar riqueza (para poucos, diga-se de passagem). Para facilitar que o desenvolvimento chegue à região norte do País, uma verdadeira marcha em prol do desmatamento tem sido realizada no senado nacional, um exemplo foi a aprovação da Medida Provisória 458 (“MP da grilagem”) que tratava da regularização da posse de terras públicas.

A cada dia surgem evidências de que o desmatamento não leva ao desenvolvimento, entendido aqui como geração de renda mais ou menos bem dividida, educação e saúde de qualidade e qualidade ambiental (ambiente saudável). E não o enriquecimento de poucos, com um passivo ambiental para todos.

Um artigo publicado na revista Science (12-Junho de 2009) por uma equipe composta por pesquisadores do exterior e da ONG brasileira IMAZON apresenta uma forte evidência de o desmatamento não compensa. Neste artigo, fizeram uma análise do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de municípios da região do arco do desmatamento na Amazônia. Eles encontraram que o IDH de áreas que estão sendo desmatadas é maior do que das áreas florestadas ainda, no entanto após a criação do gado por uns 5-10 anos, o solo da região perde o pouco de fertilidade que tem e a produção cai, levando os criadores de gado a buscarem novas áreas. Resultado: o IDH começa a cair e logo já está em um nível bastante inferior aos das áreas florestadas.

Outra faceta deste problema é que isto vira um ciclo vicioso. O desmatamento abre espaço para novas pastagens que serão ocupadas pelo gado. Com o esgotamento do solo, novas pastagens têm que ser formadas em áreas que foram recém desmatadas. Desta forma, sempre há novas áreas sendo abandonadas e ficando mais pobres do que antes quando florestadas.

Uma boa solução para a geração de renda de forma bem distribuída poderá ser alcançada na Amazônia a partir de duas iniciativas: a extração sustentável de produtos naturais e o pagamento por serviços ambientais (PSA). No primeiro caso, a colheita de castanhas, resinas, frutos e a extração de produtos da floresta para fins industriais poderão ser uma forma de valorizar a florestas em pé. Os PSA (mercado de Carbono oficial e alternativo, REDD) são uma outra possibilidade que junto com a primeira podem gerar renda por um longo período nesta região, fazendo dela uma prima tão rica quanto a Mata Atlântica, porém com sua cobertura vegetal protegida.

O importante é ressaltar que o desmatamento não é a única forma de gerar renda na região Amazônica. Sendo a pior, pois além de ser baseada na concentração fundiária, desmata-se para a criação de gado ou produção de soja para atender ao mercado externo, ficando a contribuição desta imensa área florestal para a manutenção do clima planetário, e como mantenedora de grande biodiversidade, como fatores de segunda ordem para o “desenvolvimento nacional”.

Versão mais recente do Texto incialmente publicado no Blog do C.I.S.C.O em Junho de 2009.

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