Ao dar esta visão à sustentabilidade, o autor Ignacy Sachs (1927, economista polonês, naturalizado francês) deixa escancarado que se deve ter uma visão holística dos problemas da sociedade, e não focar apenas na gestão dos recursos naturais. É pensar em algo muito mais profundo, que visa uma verdadeira metamorfose do modelo civilizatório atual.

As cinco dimensões do ecodenvolvimento, segundo Ignacy Sachs (1993, pág 37 e 38). (Mais recentemente, Sachs passou a considerar 8 dimensões, lei sobre elas aqui: Dimensões da sustentabilidade )

Todo o planejamento de desenvolvimento precisa levar em conta, simultaneamente, as seguintes cinco dimensões de sustentabilidade:

1. Social, que se entende como a criação de um processo de desenvolvimento que seja sustentado por um outro crescimento e subsidiado por uma outra visão do que seja uma sociedade boa. A meta é construir uma civilização com maior equidade na distribuição de renda e de bens, de modo a reduzir o abismo entre os padrões de vida dos ricos e dos pobres.

2. Econômica, que deve ser tornada possível através da alocação e do gerenciamento mais eficiente dos recursos e de um fluxo constante de investimentos públicos e privados. Uma condição importante é a de ultrapassar as configurações externas negativas resultantes do ônus do serviço da dívida e da saída líquida de recursos financeiros do sul, dos termos de troca desfavoráveis, das barreiras protecionistas ainda existentes no Norte e do acesso limitado à ciência e tecnologia. A eficiência econômica deve ser avaliada em termos macrossociais, e não apenas através do critério da rentabilidade empresarial de caráter microeconômico.

3. Ecológica, que pode ser melhorada utilizando-se das seguintes ferramentas:

  • Ampliar a capacidade de carga da espaçonave Terra, através da criatividade, isto é, intensificando o uso do potencial de recursos dos diversos ecossistemas, com um mínimo de danos aos sistemas de sustentação da vida;
  • Limitar o consumo de combustíveis fósseis e de outro recursos e produtos que são facilmente esgotáveis ou danosos ao meio ambiente, substituindo-os por recursos ou produtos renováveis e/ou abundantes, usados de forma não agressiva ao meio ambiente;
  • Reduzir o volume de resíduos e de poluição, através da conservação de energia e de recursos e da reciclagem;
  • Promover a autolimitação no consumo de materiais por parte dos países ricos e dos indivíduos em todo o planeta;
  • Intensifica a pesquisa para a obtenção de tecnologias de baixo teor de resíduos e eficientes no uso de recursos para o desenvolvimento urbano, rural e industrial;
  • Definir normas para uma adequada proteção ambiental, desenhando a máquina institucional e selecionando o composto de instrumentos econômicos, legais e administrativos necessários para o seu cumprimento.

4. Espacial, que de ser dirigida para a obtenção de uma configuração rural-urbana mais equilibrada e uma melhor distribuição territorial de assentamentos urbanos e atividades econômicas, com ênfase no que segue:

  • Reduzir a concentração excessiva nas áreas metropolitanas;
  • Frear a destruição de ecossistemas frágeis, mas de importância vital, através de processos de colonização sem controle;
  • Promover a agricultura e a exploração agrícola das florestas através de técnicas modernas, regenerativas, por pequenos agricultores, notadamente através do uso de pacotes tecnológicos adequados, do crédito e do acesso a mercados;
  • Explorar o potencial da industrialização descentralizada, acoplada à nova geração de tecnoligias, com referência especial às industrias de biomassa e do seu papel na criação de oportunidades de emprego não-agrícolas nas áreas rurais: nas palavras de M. S. Swaminatha “uma nova forma de civilização baseada no uso sustentável de recursos não é apenas possível, mas essencial” (McNeely et al. 1990: 10);
  • Criar uma rede de reservas naturais e de biosfera, para proteger a biodiversidade.

5. Cutural, incluindo a procura de raízes endógenas de processos de modernização e de sistemas agrícolas integrados, processos que busquem mudanças dentro da continuidade cultural e que traduzam o conceito normativo de ecodesenvolvimento em um conjunto de soluções específicas para o local, o ecossistema, a cultura e a área.

Referência:

MCNEELY, J. A. et al. Conserving World’s Biological Diversity. Gland e Washington: IUCN/WRI/Conservation International/World Wildlife Fund-US/The World Bank, 1990.

Referência do fragmento:

SACHS, I. Estratégias de transição para o século XXI. In: BURSZTYN, M. Para Pensar o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 29-56.

Leia também uma versão atualizada e ampliada deste post Dimensões da sustentabilidade

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